quarta-feira, 24 de novembro de 2010

As UPPs segundo Rodrigo Pimentel


Como muitos sabem, conversei com o ex-policial militar Rodrigo Pimentel (12 anos de PM e 7 de Batalhão de Operações Especiais) sobre a implantação das UPPs e seus rumos para minha pesquisa de Sociologia Urbana. Aqui está o resultado. Pimentel defende a ocupação como única medida capaz de coibir a disputa armada por territórios na cidade e aponta o risco de miliciarização das UPPs caso a não haja investimento na polícia militar do Estado do Rio de Janeiro.


A origem


“Com o fim da guerra ideológica pós-queda do Muro de Berlim e antes do terrorismo, os EUA traçaram como inimigo a cocaína e houve um processo de satanização da droga no mundo. No Rio, governos entendem as drogas como pior mal para a sociedade. Logo, vamos invadir esses guetos e matar os vendedores. Isso é absurdo, porque o que mata é a arma. Eu acreditei nisso: que estava promovendo segurança público quando entrava na favela e fazia apreensões de drogas.Entendi depois que a violência vinha da disputa de território para a venda drogas. Os traficantes dizem: 'as armas não são para atirar em policial, mas para garantir o meu ponto de venda'.”


A violência


“Entendendo a violência do Rio de Janeiro como uma disputa armada de território (para vender cocaína, botijão de gás superfaturado, maconha). Sendo assim, ela só poderia ser resolvida com a ocupação – num primeiro momento – militar do terreno. Acho que consumismo desenfreado gera um jovem que quer sair da invisibilidade através de marcas, roupas, mulheres, ouro. Pode ser essa a explicação para a participação de um jovem no grupo armado. Esa cultura de consumo é específica da cidade do Rio de Janeiro.”


A política de segurança no Rio de Janeiro


“Nos últimos 25 anos a estratégia de combate ao tráfico de drogas foi sempre a mesma: ações pontuais. Batalhões de polícia militar e delegacias de polícia civil (que atuaram ostensivamente) realizavam invasões para apreender armas e drogas. Essa foi a postura de todos os governos, independente da ideologia. Em cada alternância de governo, o processo era radicalizado. Houve uma escalada de operações que culminou com a 'gratificação faroeste' no governo Marcelo Alencar. Com o Garotinho, isso foi implementado com mais força. Com a Benedita da Silva, de orientação de esquerda, o governo teve a polícia que mais matou em sete meses.”


Retomada de território


“Cerca de 70% dos homicídios e dos roubos de carro na cidade se deram por causa dessa disputa. Assim, a melhor solução para acabar com essa violência é a ocupação, que foi tímida no governo Brizola, no morro da Providência. Era política de governo – não de estado – sem apoio. No governo Garotinho, uma nova tentativa foi feita com o Luiz Eduardo Soares, no Cantagalo e Pavão- Pavãozinho com o GPAE (Grupamento de Policiamento em Áreas Específicas): ocupação territorial para zerar homicídios. O projeto recebeu muitas críticas. Disseram que polícia estava ali para proteger traficantes.


A ocupação não acaba com o tráfico porque a demanda não cessa. Acho que a ocupação é eficiente, mesmo que desacompanhada de ações sociais contundentes, porque reduziu homicídios. Ela é suficiente porque preservou vidas humanas, mas para torná-la efetiva e poder desmobilizá-la daqui a um tempo, a ação social precisa existir.


A indicação é de um policial para 220 habitantes. Na UPP do Santa Marta, por exemplo, temos um policial para cada 35 habitantes. É uma necessidade emergencial para sufocar tráfico e retirar fuzis, mas precisamos criar condições para que essa juventude não crie gosto pelo consumo ou que tenha acesso a ele.”


O futuro das UPPs


“O ponto negativo desse processo é que a UPP é executada pela mesmo polícia de 30 anos. O risco disso é miliciarização num prazo de 5 ou 6 anos. Esse prognóstico pode ser evitado com implemento salarial para policial de UPP, com condição adequada de trabalho, com corregedoria e ouvidoria eficientes. Lamento dizer que a maioria dos policiais de UPP com os quais eu converso não estão satisfeitos e preferiam estar no BOPE combatendo bandido trocando tiro com traficante porque é mais viril, mais prestigiado, mais endeusado e mais glamurizado. Ser rambo é bonito, prevenir o crime é feio. Tudo isso é uma mentira. Eu queria sair da rotina do BOPE e ir para a rotina da ocupação porque já tinha certeza de que operação policial em favela não funcionava.


A UPP expulsou os traficantes e sinalizou o cumprimento da lei (de não permitir drogas). A pacificação vai alcançar os grandes complexos da cidade, independente de o governador querer ou não. A UPP saiu do controle do governo do Estado e agora é da sociedade, como acontece com as políticas com mais de 90% de aprovação.


Sou solidário em deixar o Complexo do Alemão por último. Não há como se ter ocupação simultânea e, se o Alemão fosse o primeiro, os traficantes de espalhariam por toda a cidade. Quando a UPP chegar até lá, eles não terão para onde ir. O traficante pode perceber que não tem mais espaço para realizar o business dele e deixar a atividade. É possível.


Acredito na polícia da pacificação. Sou entusiasta do processo. Defendo que o projeto vire lei e não possa ser desmontado em cinco ou seis anos. As unidades precisam permanecer no Rio até se apagar a cultura do narcotráfico, como aconteceu na Tavares Bastos [comunidade de Laranjeiras que é sede do BOPE]. E isso pode levar uma geração.”


E por falar em quem puxa o gatilho...

A pergunta continua: Quem puxa o gatilho?

domingo, 10 de outubro de 2010

Você ajuda a puxar esse gatilho?


No embalo dos meus ajustes na monografia, do resultado das eleições, de algumas críticas que li no jornal e das quais discordo sem surpresa e, claro, da estreia, fui ver Tropa de Elite 2 ontem. Adorei o filme. Nenhuma surpresa também, já que li o livro com certa paixão e vi o Tropa 1 tomada de alguma emoção.

O roteiro é impecável, as cenas de ação são muito bem dirigidas, a mistura de histórias que montou novos personagens foi muito bem alinhada e o 'Beto' grisalho é ainda melhor. Não pude não reproduzir esse comentário gracioso que ouvi da poltrona ao lado e do qual não discordo. Me permito o riso porque ele também esteve presente em muitos momentos do longa. Não direi aqui nada que prejudique quem não viu o filme ainda. Fiquem tranquilos. Só comentarei sobre o que todos já sabem.

O deputado defensor dos direitos humanos me lembrou uma colega do curso de Sociologia Urbana com a qual tive um debate caloroso - mesmo que por e-mail - sobre o assunto quando um PM atirou na cabeça de um assaltante que ameaçava uma refém com uma granada numa farmácia de Vila Isabel, Zona Norte do Rio. Não sou de ciências sociais, todos sabem. Como ela mesma disse: "não acredito que você defende essa ação da polícia depois de ler e discutir tudo o que foi lido e discutido no curso sobre as razões que levaram aquele homem a estar naquela situação".

É, eu ajudei aquele PM a puxar aquele gatilho. Acho que meu pensamento está mais para Capitão Nascimento que para direitos humanos. Mesmo sendo capaz de entender o que deixou a cidade
assim, penso com dificuldade na possibilidade de a violência chegar perto de mim e eu pensar em direitos humanos. Acho que as reivindicações de diretos humanos deveriam vir antes da
violência com os tais direitos de cidadania dos quais os pobres são privados. Educação, saúde, emprego, urbanização e urbanidade.

Não, eu não defendo chacina. Minha dificuldade está em imaginar que, se num assalto a minha mãe estiver com a arma na cabeça dela - como já esteve há 30 anos num banco - e um policial puder encerrar aquele terror, eu ainda não pensaria nesses direitos humanos que vemos por aí. Falha minha. Mas não sei se quero pensar diferente, mesmo achando que deveria. A questão é que eu acho que os defensores desses direitos humanos também ajudam a puxar o gatilho. E viciado também ajuda. Mas quem lucra com isso não só puxa, como pensa no gatilho. E isso é grave. E essas pessoas só são combatidas com voto. E como pensar no voto quem não tem bens de cidadania? A escolha é plena ou viciada?

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Marina... você se pintou?


Marina... você se pintou?

Maurício Abdalla [1][1]

“Marina, morena Marina, você se pintou” – diz a canção de Caymmi. Mas é provável, Marina, que pintaram você. Era a candidata ideal: mulher, militante, ecológica e socialmente comprometida com o “grito da Terra e o grito dos pobres”, como diz Leonardo Boff.

Dizem que escolheu o partido errado. Pode ser. Mas, por outro lado, o que é certo neste confuso tempo de partidos gelatinosos, de alianças surreais e de pragmatismo hiperbólico? Quem pode atirar a primeira pedra no que diz respeito a escolhas partidárias?

Mas ainda assim, Marina, sua candidatura estava fadada a não decolar. Não pela causa que defende, não pela grandeza de sua figura. Mas pelo fato de que as verdadeiras causas que afetam a população do Brasil não interessam aos financiadores de campanha, às elites e aos seus meios de comunicação. A batalha não era para ser sua. Era de Dilma contra Serra. Do governo Lula contra o governo do PSDB/DEM. Assim decidiram as “famiglias” que controlam a informação no país. E elas não só decidiram quem iria duelar, mas também quiseram definir o vencedor. O Estadão dixit: Serra deve ser eleito.

Mas a estratégia de reconduzir ao poder a velha aliança PSDB/DEM estava fazendo água. O povo insistia em confirmar não a sua preferência por Dilma, mas seu apreço pelo Lula. O que, é claro, se revertia em intenção de voto em sua candidata. Mas “os filhos das trevas são mais espertos do que os filhos da luz”. Sacaram da manga um ás escondido. Usar a Marina como trampolim para levar o tucano para o segundo turno e ganhar tempo para a guerra suja.

Marina, você, cujo coração é vermelho e verde, foi pintada de azul. “Azul tucano”. Deram-lhe o espaço que sua causa nunca teve, que sua luta junto aos seringueiros e contra as elites rurais jamais alcançaria nos grandes meios de comunicação. A Globo nunca esteve ao seu lado. A Veja, a FSP, o Estadão jamais se preocuparam com a ecologia profunda. Eles sempre foram, e ainda são, seus e nossos inimigos viscerais.

Mas a estratégia deu certo. Serra foi para o segundo turno, e a mídia não cansa de propagar a “vitória da Marina”. Não aceite esse presente de grego. Hão de descartá-la assim que você falar qual é exatamente a sua luta e contra quem ela se dirige.

“Marina, você faça tudo, mas faça o favor”: não deixe que a pintem de azul tucano. Sua história não permite isso. E não deixe que seus eleitores se iludam acreditando que você está mais perto de Serra do que de Dilma. Que não pensem que sua luta pode torná-la neutra ou que pensem que para você “tanto faz”. Que os percalços e dificuldades que você teve no Governo Lula não a façam esquecer os 8 anos de FHC e os 500 anos de domínio absoluto da Casagrande no país cuja maioria vive na senzala. Não deixe que pintem “esse rosto que o povo gosta, que gosta e é só dele”.

Dilma, admitamos, não é a candidata de nossos sonhos. Mas Serra o é de nossos mais terríveis pesadelos. Ajude-nos a enfrentá-lo. Você não precisa dos paparicos da elite brasileira e de seus meios de comunicação. “Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu”.



[1][1] Professor de filosofia da UFES, autor de Iara e a Arca da Filosofia (Mercuryo Jovem), dentre outros.

Seria trágico se não fosse cômico






segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O racismo já chegou perto de você?

A historinha aconteceu na Lapa, reduto da boemia carioca.

Um jovem achou uma carteira no chão e após conferir que o dono estava na mesa ao lado, chamou-o pelo nome e devolveu. Agradecimento? Eis que o dono relapso diz: Pô, você pegou a carteira e eu nem vi? Seria 'apenas' pura falta de educação se o jovem que devolveu gentil e educadamente não fosse negro.

O racismo já chegou perto de você?