
Centro de Buenos Aires
Pelourinho em Salvador

Como muitos sabem, conversei com o ex-policial militar Rodrigo Pimentel (12 anos de PM e 7 de Batalhão de Operações Especiais) sobre a implantação das UPPs e seus rumos para minha pesquisa de Sociologia Urbana. Aqui está o resultado. Pimentel defende a ocupação como única medida capaz de coibir a disputa armada por territórios na cidade e aponta o risco de miliciarização das UPPs caso a não haja investimento na polícia militar do Estado do Rio de Janeiro.
A origem
“Com o fim da guerra ideológica pós-queda do Muro de Berlim e antes do terrorismo, os EUA traçaram como inimigo a cocaína e houve um processo de satanização da droga no mundo. No Rio, governos entendem as drogas como pior mal para a sociedade. Logo, vamos invadir esses guetos e matar os vendedores. Isso é absurdo, porque o que mata é a arma. Eu acreditei nisso: que estava promovendo segurança público quando entrava na favela e fazia apreensões de drogas.Entendi depois que a violência vinha da disputa de território para a venda drogas. Os traficantes dizem: 'as armas não são para atirar em policial, mas para garantir o meu ponto de venda'.”
A violência
“Entendendo a violência do Rio de Janeiro como uma disputa armada de território (para vender cocaína, botijão de gás superfaturado, maconha). Sendo assim, ela só poderia ser resolvida com a ocupação – num primeiro momento – militar do terreno. Acho que consumismo desenfreado gera um jovem que quer sair da invisibilidade através de marcas, roupas, mulheres, ouro. Pode ser essa a explicação para a participação de um jovem no grupo armado. Esa cultura de consumo é específica da cidade do Rio de Janeiro.”
A política de segurança no Rio de Janeiro
“Nos últimos 25 anos a estratégia de combate ao tráfico de drogas foi sempre a mesma: ações pontuais. Batalhões de polícia militar e delegacias de polícia civil (que atuaram ostensivamente) realizavam invasões para apreender armas e drogas. Essa foi a postura de todos os governos, independente da ideologia. Em cada alternância de governo, o processo era radicalizado. Houve uma escalada de operações que culminou com a 'gratificação faroeste' no governo Marcelo Alencar. Com o Garotinho, isso foi implementado com mais força. Com a Benedita da Silva, de orientação de esquerda, o governo teve a polícia que mais matou em sete meses.”
Retomada de território
“Cerca de 70% dos homicídios e dos roubos de carro na cidade se deram por causa dessa disputa. Assim, a melhor solução para acabar com essa violência é a ocupação, que foi tímida no governo Brizola, no morro da Providência. Era política de governo – não de estado – sem apoio. No governo Garotinho, uma nova tentativa foi feita com o Luiz Eduardo Soares, no Cantagalo e Pavão- Pavãozinho com o GPAE (Grupamento de Policiamento em Áreas Específicas): ocupação territorial para zerar homicídios. O projeto recebeu muitas críticas. Disseram que polícia estava ali para proteger traficantes.
A ocupação não acaba com o tráfico porque a demanda não cessa. Acho que a ocupação é eficiente, mesmo que desacompanhada de ações sociais contundentes, porque reduziu homicídios. Ela é suficiente porque preservou vidas humanas, mas para torná-la efetiva e poder desmobilizá-la daqui a um tempo, a ação social precisa existir.
A indicação é de um policial para 220 habitantes. Na UPP do Santa Marta, por exemplo, temos um policial para cada 35 habitantes. É uma necessidade emergencial para sufocar tráfico e retirar fuzis, mas precisamos criar condições para que essa juventude não crie gosto pelo consumo ou que tenha acesso a ele.”
O futuro das UPPs
“O ponto negativo desse processo é que a UPP é executada pela mesmo polícia de 30 anos. O risco disso é miliciarização num prazo de 5 ou 6 anos. Esse prognóstico pode ser evitado com implemento salarial para policial de UPP, com condição adequada de trabalho, com corregedoria e ouvidoria eficientes. Lamento dizer que a maioria dos policiais de UPP com os quais eu converso não estão satisfeitos e preferiam estar no BOPE combatendo bandido trocando tiro com traficante porque é mais viril, mais prestigiado, mais endeusado e mais glamurizado. Ser rambo é bonito, prevenir o crime é feio. Tudo isso é uma mentira. Eu queria sair da rotina do BOPE e ir para a rotina da ocupação porque já tinha certeza de que operação policial em favela não funcionava.
A UPP expulsou os traficantes e sinalizou o cumprimento da lei (de não permitir drogas). A pacificação vai alcançar os grandes complexos da cidade, independente de o governador querer ou não. A UPP saiu do controle do governo do Estado e agora é da sociedade, como acontece com as políticas com mais de 90% de aprovação.
Sou solidário em deixar o Complexo do Alemão por último. Não há como se ter ocupação simultânea e, se o Alemão fosse o primeiro, os traficantes de espalhariam por toda a cidade. Quando a UPP chegar até lá, eles não terão para onde ir. O traficante pode perceber que não tem mais espaço para realizar o business dele e deixar a atividade. É possível.
Acredito na polícia da pacificação. Sou entusiasta do processo. Defendo que o projeto vire lei e não possa ser desmontado em cinco ou seis anos. As unidades precisam permanecer no Rio até se apagar a cultura do narcotráfico, como aconteceu na Tavares Bastos [comunidade de Laranjeiras que é sede do BOPE]. E isso pode levar uma geração.”


Marina... você se pintou?
Maurício Abdalla [1][1]
“Marina, morena Marina, você se pintou” – diz a canção de Caymmi. Mas é provável, Marina, que pintaram você. Era a candidata ideal: mulher, militante, ecológica e socialmente comprometida com o “grito da Terra e o grito dos pobres”, como diz Leonardo Boff.
Dizem que escolheu o partido errado. Pode ser. Mas, por outro lado, o que é certo neste confuso tempo de partidos gelatinosos, de alianças surreais e de pragmatismo hiperbólico? Quem pode atirar a primeira pedra no que diz respeito a escolhas partidárias?
Mas ainda assim, Marina, sua candidatura estava fadada a não decolar. Não pela causa que defende, não pela grandeza de sua figura. Mas pelo fato de que as verdadeiras causas que afetam a população do Brasil não interessam aos financiadores de campanha, às elites e aos seus meios de comunicação. A batalha não era para ser sua. Era de Dilma contra Serra. Do governo Lula contra o governo do PSDB/DEM. Assim decidiram as “famiglias” que controlam a informação no país. E elas não só decidiram quem iria duelar, mas também quiseram definir o vencedor. O Estadão dixit: Serra deve ser eleito.
Mas a estratégia de reconduzir ao poder a velha aliança PSDB/DEM estava fazendo água. O povo insistia em confirmar não a sua preferência por Dilma, mas seu apreço pelo Lula. O que, é claro, se revertia em intenção de voto em sua candidata. Mas “os filhos das trevas são mais espertos do que os filhos da luz”. Sacaram da manga um ás escondido. Usar a Marina como trampolim para levar o tucano para o segundo turno e ganhar tempo para a guerra suja.
Marina, você, cujo coração é vermelho e verde, foi pintada de azul. “Azul tucano”. Deram-lhe o espaço que sua causa nunca teve, que sua luta junto aos seringueiros e contra as elites rurais jamais alcançaria nos grandes meios de comunicação. A Globo nunca esteve ao seu lado. A Veja, a FSP, o Estadão jamais se preocuparam com a ecologia profunda. Eles sempre foram, e ainda são, seus e nossos inimigos viscerais.
Mas a estratégia deu certo. Serra foi para o segundo turno, e a mídia não cansa de propagar a “vitória da Marina”. Não aceite esse presente de grego. Hão de descartá-la assim que você falar qual é exatamente a sua luta e contra quem ela se dirige.
“Marina, você faça tudo, mas faça o favor”: não deixe que a pintem de azul tucano. Sua história não permite isso. E não deixe que seus eleitores se iludam acreditando que você está mais perto de Serra do que de Dilma. Que não pensem que sua luta pode torná-la neutra ou que pensem que para você “tanto faz”. Que os percalços e dificuldades que você teve no Governo Lula não a façam esquecer os 8 anos de FHC e os 500 anos de domínio absoluto da Casagrande no país cuja maioria vive na senzala. Não deixe que pintem “esse rosto que o povo gosta, que gosta e é só dele”.
Dilma, admitamos, não é a candidata de nossos sonhos. Mas Serra o é de nossos mais terríveis pesadelos. Ajude-nos a enfrentá-lo. Você não precisa dos paparicos da elite brasileira e de seus meios de comunicação. “Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu”.
[1][1] Professor de filosofia da UFES, autor de Iara e a Arca da Filosofia (Mercuryo Jovem), dentre outros.